quarta-feira, 28 de junho de 2017

A INVENÇÃO DO TEMPO - III



 De vez em quando, Deus se visibilizava para suas primeiras criaturas e dialogava com elas no maravilhoso habitat que Ele lhes havia proporcionado para que gozassem a vida em sempiterna bem-aventurança.

 Numa dessas visitas, mais uma vez, Adão, vencido pela necessidade de conhecer mais sobre o Universo, perguntou ao Senhor:

 “Pai (Já estava autorizado a chamar Deus de Pai) ainda não consegui entender o conceito de “infinito”. Como é o “infinito”?

 Deus fechou por um momento super-rápido os seus grandes olhos onipotentes e pensou em como responderia a essa questão de Adão. Deus, então, respondeu:


 “Filho. Devo confessar que, nessa questão tão complexa até eu tenho alguma dificuldade de entender”. E desvisibilizou-se novamente.

domingo, 28 de maio de 2017

MICROCONTO N. 3

REALIZAÇÃO
 Dizia aquela senhora para seu filho: "O importante para ser feliz, é fazer aquilo que a gente gosta, não é, Hitler?"

A ÚLTIMA BIBLIOTECA



 Corria o ano de 2300 DC. As criações tecnocientíficas super-evoluídas já eram consideradas o suprassumo da tecnologia desenvolvida pelos humanos.

 Parecia que nada mais havia para ser criado em qualquer ramo da ciência.

 Com a abundância, a humanidade rolava no tédio, fruto do “nãotemmaisnadadenovidade”. Tudo que podia ser inventado já fora. Todas as comodidades possíveis já estavam em funcionamento. Até o controle remoto agora era acionado através do pensamento. As pessoas voltaram, então – os saudosistas continuavam incorrigíveis - a querer ler uns livros, mas as bibliotecas haviam sido extintas. Surgiu, porém, um maluco teve a feliz ideia de arrecadar – em alguns lugares esquecidos e cheios de mofo – antigos objetos que haviam sido chamados de livro no passado longínquo. Vasculhou sótãos e porões do mundo inteiro já abandonados há muito tempo até encontrar alguns velhos e semidestruidos livros que haviam, milagrosamente, sobrevivido. Formou, então, uma pequeníssima biblioteca com pouco mais de uma centena de exemplares. Leu todos e ficou maravilhado porque redescobriu o prazer de ler uma folha impressa, sem luz para controlar e sem botões para apertar. Enfim, sem precisar ligar e desligar qualquer chave. Sem precisar utilizar qualquer tipo de energia a não ser a própria vontade e a de ter que abrir e fechar o livro quando tivesse que continuar ou interromper a leitura.

 Esse homem, em um dia de boas idéias, lembrou-se de compartilhar seu prazer com os demais sobreviventes do mundo. Não teve ideia de cobrar por isso porque naquelas alturas o dinheiro não circulava mais. As pessoas pegavam o que precisavam ou imaginavam precisar sem precisar comprá-las.

 E assim foi. Logo a fila dos interessados em ler livros era enorme. Quando alguém chegava, ele tinha apenas que anotar o nome e dizer a data em que o interessado poderia vir para ler um livro cujo título escolhia entre os poucos que existiam:

 “A sua leitura está marcada para o dia...Deixe ver...(Procurou em um grande livro de anotações, isto é, em seu computador manual. Aqui está. O livro que o senhor quer ler é muito requisitado. Fala de coisas que não existem mais: árvores, animais irracionais. É! Você terá que voltar no dia 16 de março de 2303, das 10h às 12h. Estamos com uma média de espera de três anos”.

 E falou para o seguinte da fila: “O próximo, por favor!”.


quinta-feira, 4 de maio de 2017

A INVENÇÃO DO TEMPO - II

 Deus pairava sobre o espaço esplendoroso habitado por Adão e Eva. Quando os humanos sentiram sua presença, logo se aproximaram. Tinham sede de saber mais alguma coisa sobre seu Criador e as maravilhas da criação colocadas a sua disposição.

 Eva, com sua curiosidade natural da espécie, foi a primeira a abordar o Senhor do Universo. Após uma curvatura respeitosa ela inquiriu:

 "Senhor, vem nos comunicar alguma novidade?"

 "Novidade, Eva? Como assim?", respondeu o Criador. E sumiu novamente.

MINICONTO N. 7

DECISÃO

 Aquele casal de gênios havia conseguido envenenar toda a humanidade. Disseminaram pelo mundo sementes geneticamente modificadas e agora a Terra estava estéril e deserta. Restavam só os dois para gerar um novo mundo, agora perfeito, como eles próprios haviam idealizado.

 Para isso haviam trabalhado incansavelmente. Até que um dia constataram que o estoque de alimentos seria suficiente somente para um deles sobreviver por algum tempo. Para o bem da ciência, e pelo surgimento de uma nova espécie humana, teriam que tomar uma decisão fatal para um dos dois...

domingo, 9 de abril de 2017

A INVENÇÃO DO TEMPO - I

 Assim que acabou de tornear aqueles dois entes - que depois chamou de homem e mulher - Deus lhes mostrou o que acabara de criar para que eles se deliciassem. Com tudo aquilo eles poderiam curtir a vida que iniciavam no mundo magnífico do paraíso. Aquelas criaturas, ao sentirem por todos os lados a maravilha da criação, não cabiam em si de contentes, mal podendo acreditar que houvesse tanta coisa criada simplesmente para alegrar a sua existência. Não conseguiam demonstrar toda sua felicidade. Era tudo deles e para sua satisfação.

 Aí Deus escutou suas manifestações com toda paciência e, depois de responder-lhes algumas perguntas, parou de falar-lhes e piscou seu grande olho onisciente para o restante do Universo e arrematou com um leve sinal de riso no semblante: "Mas agora vou criar o TEMPO". E desapareceu, deixando suas duas mais importantes obras em expectativa com aquela sensação de que não conseguiriam entender tudo...ou quase nada!

terça-feira, 21 de março de 2017

JANJÃO TAMBÉM PODE SER PRESO

 Estava eu, em um sábado pela manhã - depois de um daqueles "prende-e-solta" promovido por um conhecido juiz federal - caminhando pela Rua da Praia, assim como quem não quer nada, só para matar o tempo, quando me deparo com o Janjão. Logo o interpelei quando cheguei mais perto dele para saber de alguma novidade, que nessas coisas ele é especial.

 "E aí, Janjão, velho, como andam as coisas?"

 "Mal". Respondeu logo em seguida. "Infelizmente mal. Perigosas."

 "Como assim, perigosas?" Manifestei minha estranheza.

 "Pois não ouviste dizer que, agora, os próximos a serem presos vão ser os que têm nomes terminados em "ão"?"

 "Mas, homem, isso não pode ser critério para prender alguém!"

 "Poder, não pode, mas, na dúvida, vou tratar de ir sumindo por um tempo. Já estou sabendo que prender ou não-prender não depende muito de critério pelo que se tem visto. O critério agora é não ter critério."

 "Não sei o que dizer, Janjão. Mas, aonde vais com tanta pressa?"

 "Vou na casa do meu amigo Hamilto para avisar dessa nova para que ele também se cuide."

 "Espera um pouco! Agora não entendi! O que tem a ver Hamilto com um nome terminado em "ão"?"

 "Cara estás esquecendo que o apelido dele é "alemão"? Não sei se eles não vão considerar o apelido também. Aliás, isso está muito em voga, não é?"

 E continuou, apressando o passo a subir a rua em direção à Independência.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

APROVEITE AS FÉRIAS

Miniconto n. 4
Gostosura
- "Ah, como está gostoso".
- "Mais depressa, a mãe pode voltar. Acaba logo".
- "Tá bem, mas, amanhã, quero outra vez".
- "Impossível!".
- "Por que? É tão bom".
- "Não dá. Vai ser a sobremesa da noite. Não vai sobrar nada".

Microconto n. 7
Saudade
 Jogado num depósito de Delegacia, um velho cassetete de borracha "made in Brazil" se queixa a outro: "Ai, que saudade de 64".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A FLORISTA


 “Boa tarde, senhora”.

 “...tarde, doutor. O que vai hoje?”

 “Hoje, rosas vermelhas. As mais lindas que a senhora tiver”.

 Era o ritual de todas as sextas-feiras, em final de tarde. Já haviam sido muitas delas. Com bom tempo; ou sem bom tempo; com sol radioso ou com chuva persistente. Sempre o mesmo local, a mesma pessoa, a mesma florista, a mesma hora. As flores é que poderiam variar conforme as que houvessem sido escolhidas na semana anterior. Não havia repetição em duas semanas seguidas.

 A variedade das cores e tons e o viço dos vegetais daquele pequeno recanto próximo a uma avenida movimentada, transformavam o asfalto em um belo jardim que atraia olhares dos passantes de final do dia. A semana estava terminava. Há os apressados que não se detém e os apressados que esquecem, por momentos, seu estresse para admirar o que enche os olhos de beleza e um pouco de paz que só o que é natural consegue.

 Ele mantinha o olhar fixo no que ela fazia. Nos menores detalhes: nos costumeiros e nos novos, se houvessem. As vezes, punha as mãos nos bolsos como se sentisse inseguro.

 Nesta sexta, volta a repetir-se o mesmo que em todas elas:

 “Boa tarde, senhora”.

 “...tarde, doutor. O que vai, hoje?”

 “Deixo para a senhora escolher. Hoje são do seu gosto”.

 Pagou, guardando a carteira no bolso do casaco e falou:

 Quando ela vai alcançar-lhe as flores, ele fala: “Esta é para entregar”

 “E o endereço qual é”, perguntou a florista.


 Ele responde: “Na verdade não sei. São para você”. E afastou-se sem dizer mais nada, pensado como seria na sexta-feira seguinte.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O JULGAMENTO DE JANJÃO - II

 "Quais são as chances de eu ser absolvido?", perguntou Janjão, manifestando preocupação com seu destino.

 "Vai depender da gravidade de tuas faltas e dos atos de bondade que praticaste em tua vida terrena. Também dependes da disposição de alguns santos que compõem a Corte. Ela vai designar um defensor, entre eles, para servir de teu advogado. A Corte tem um presidente designado a cada dez séculos. Estás com sorte porque o atual presidente é São Francisco, que é reconhecido por ser muito complacente com os pecadores e ele tem poder de voto de minerva no caso de haver empate. Além do que, um presidente sempre tem maiores poderes do que os outros membros e influi muito nas decisões".

 "E se for condenado, posso recorrer?. A quem?".

 "Poder, pode. Deus é a última instância. Mas até hoje não houve nenhum caso em que a nossa Alta Corte fosse contrariada. Todas suas decisões têm sido homologadas pelo Criador".

 "Quanto tempo vou esperar para ter uma resposta?".

 "Tempo? Isso não existe aqui. Aliás é parecido com o que acontece lá no teu País. Não há prazo para as decisões. Aqui o tempo não conta tempo".

 Janjão não queria perder a oportunidade, mas achava que já estava incomodando São Pedro com suas questões. "Quais são os atos mais graves que podem dar em condenação?", perguntou, pensando, agora, em algumas faltas que havia praticado em vida. "Existem atenuantes?".

 A nossa Corte formou jurisprudência em julgar as intenções. Tudo depende da intenção com que uma boa ou má ação seja praticada. Assim, se alguém pratica uma ação com intenção de fazer o bem ela é contada como positiva, mesmo que o resultado não seja alguma coisa boa".

 "Não posso alegar em meu favor o que as pessoas diziam de mim?"

 "Nem a favor, nem contra. Aqui não vale a teoria do domínio do fato. As mentiras e as verdades são conhecidas igualmente. O que vale aqui é o domínio da intenção. Apesar de que...".

 "Eu errei muitas vezes, mas sempre com boas intenções. Isso vai valer, então?".

 São Pedro pensou um pouco, acariciando a longa barba com a mão esquerda e respondeu: "Na verdade, o que está acontecendo é que os processos estão trancados porque em um julgamento de um ex-membro do STF brasileiro, que morreu há algum tempo, ele propôs uma nova interpretação para o caso de que uma intenção má tenha produzido um resultado bom. Ele defende que isso seja igualmente positivo. Nunca havia acontecido uma contestação aqui e a Corte ainda não conseguiu deliberar sobre a questão. Assim, está tudo parado até que se consiga resolver o embrulho".

 "São Pedro, eu..."

 São Pedro fez-lhe um sinal de que a entrevista havia acabado, dizendo-lhe "Na fila atrás de  ti há dez mil almas querendo respostas para suas dúvidas. Volta depois para conversarmos com mais calma. O seguinte, por favor", falou, encerrando o assunto com Janjão.

 Janjão se afastou pensativo e procurou alguém com quem conversar quem sabe pelos dez séculos seguintes.

(Porto Alegre, dezembro/2016)